Muito se fala sobre a população do Linux e, com o crescimento do Ubuntu e de outras distribuições, parece que 2009 será finalmente o “ano do Linux” nos desktops, algo que vem sendo profetizado há muito tempo. Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela que esta pode ser na verdade uma batalha perdida. Talvez isso soe estranho vindo de alguém que desenvolveu uma distribuição Linux ao longo de quase 4 anos, por isso deixe-me explicar melhor.

De certa forma, o Linux está “pronto para o desktop” desde 1994, quando foi feito o port inicial do Xfree86 e o sistema ganhou suporte a aplicativos gráficos. A partir daí, a questão passou a ser como atrair os desenvolvedores e os fabricantes de hardware para o sistema, de forma que ele fosse capaz de rodar os softwares populares e tivesse suporte a todos os componentes de hardware usados.

Entretanto, como bem sabemos, a adoção do sistema nos desktops foi muito mais lenta do que se esperava e em pleno final de 2008, a percentagem de desktops rodando alguma distribuição Linux ainda está abaixo dos 5% na maioria dos países. Este número deve crescer ao longo dos próximos anos, mas é improvável que o percentual ultrapasse os 10% antes do final de 2010.

Os números são muito diferentes do que temos nos servidores e nos dispositivos embarcados, onde o Linux supera o Windows em utilização em diversas áreas. Os servidores Linux são maioria entre os servidores de hospedagem e nos clusters, por exemplo. Com a popularização do cloud computing, a utilização do Linux nos servidores deve aumentar ainda mais nos próximos anos, aplicando uma pressão cada vez maior sobre o Windows Server.

No caso dos desktops que são o tema deste artigo, a batalha pode ser dividida em duas fases. A primeira fase foi a batalha pelos aplicativos, onde o que importavam eram aplicativos rodando localmente, como o Office, Photoshop, Corel, etc.

Esta primeira batalha acabou sendo vencida pelo Windows, que, como bem sabemos, conseguiu manter uma percentagem de uso nos desktops acima dos 90%, apesar da pressão exercida pelas diferentes distribuições Linux.

Embora existam muitos aplicativos de boa qualidade para Linux, como o Gimp e o OpenOffice, a maioria dos usuários acabavam sempre sentindo falta de alguns recursos ou aplicativos específicos e a maioria acabava voltando para o Windows. Sempre existia a possibilidade de rodar aplicativos e jogos através do Wine e do Cedega, mas quase sempre os aplicativos rodavam com perda de desempenho ou com falhas, o que fazia com que eles fossem utilizáveis apenas em casos específicos.

A batalha pelos aplicativos continuou até por volta de 2006, quando deu lugar ao segundo ato: a era da web. Nessa segunda batalha, os aplicativos desktop passaram a ser secundários e as atividades da maioria dos usuários passaram a ser centradas no uso do navegador, aplicativos online e comunidades. Aplicativos como o Office e o Corel deram lugar ao Gmail, Orkut, Flickr, etc. Um exemplo emblemático disso é o lançamento do Photoshop Express, que funciona via navegador.

Curiosamente, foi justamente a partir daí que o Linux passou a ganhar mais espaço nos desktops. A resistência passou a ser menor, simplesmente por que as pessoas passaram a usar menos aplicativos locais e acessar mais serviços através do navegador. As dúvidas mais comuns deixaram de ser sobre como encontrar aplicativos que substituem os disponíveis para o Windows ou sobre como rodar jogos no Wine e passaram a ser centradas em como configurar placas wireless ou modems 3G, ou como acessar determinados sites usando o Firefox.

Em última análise, para a maioria dos usuários hoje em dia, o sistema operacional tem uma importância relativamente pequena. Desde que consigam conectar na web, instalar o suporte a flash no Firefox e encontrem um programa de IM fácil de usar, estão felizes. A função do sistema operacional passou a ser de um mero coadjuvante e a atração principal passou a ser o navegador, que se tornou a plataforma onde rodam os aplicativos.

É bem provável que o uso do Linux nos desktops continue crescendo, possivelmente até superando o Windows em algum ponto (provavelmente na forma de algum sistema simplificado, que venha pré-instalado e permita executar tarefas comuns de forma simples), mas em última análise isso não tem mais tanta importância, pois os desktops estão condenados a se tornarem meros terminais de acesso à web. A verdadeira batalha está agora nos servidores e nos aplicativos via web, que são onde os dados são armazenados e onde os ciclos de processamento são realmente usados para coisas importantes.

Pode ser que uma antecipação deste cenário tenha sido o que levou a Red Hat a descontinuar o Red Hat Desktop em 2003, concentrando os esforços em torno do RHEL e nas soluções destinadas a empresas. Talvez estivessem certos afinal, já que a Red Hat já ultrapassou a marca dos US$ 500 milhões de lucro líquido em 2008, enquanto empresas como a Mandriva, que apostaram nos desktops, lutam para sobreviver.

Estudar Linux continua sendo importante para o desenvolvimento pessoal e profissional, pois hoje em dia o sistema é usado em quase tudo, de servidores de hospedagem, a centrais de VoIP com Asterisk, passando por todo tipo de roteador, servidores de arquivos, sistemas embarcados em geral, e assim por diante. É nessas áreas que o sistema realmente irá fazer a diferença daqui em diante. O uso nos destkops é apenas uma consequência.

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